Endividamento excessivo

Endividamento excessivo

Por que algumas empresas se endividam excessivamente ao implementar novos projetos de investimentos ? 

As empresas têm múltiplos objetivos, dentre os quais,  os de perpetuar-se e  crescer.  Para isso devem aproveitar as oportunidades de investimentos que produzam taxas marginais de retorno superior ao custo marginal de capital. Resulta daí a necessidade de observar-se a questão do endividamento sobre dois ângulos simultâneos:  a) do lado do ativo,  pelo qual serão definidos o valor do investimento e  as receitas e custos determinantes da sua rentabilidade operacional;  b) sob o aspecto do passivo,  tendo em vista a mobilização das  fontes de recursos e a identificação dos respectivos custos de captação. 

Novos investimentos em ativos fixos podem ter inúmeras finalidades, isoladas ou combinadas entre si, tais como: reposição, expansão, modernização, aquisição de tecnologia etc. O  foco dessa   questão reside na necessidade de escolher  entre oportunidades concorrentes face à realidade econômica inevitável da limitação de  recursos. A seleção entre alternativas potenciais passa pela eleição de prioridades, ordenadas de acordo com algum critério racional. Um desses critérios, pela abordagem financeira, corresponde ao de maximização do valor presente líquido dos investimentos, descontados ao custo marginal de capital.  Ou ainda, a ordenação dos investimentos, em escala  decrescente, de acordo com a taxa interna de retorno marginal, servindo como comparação, o custo médio ponderado marginal de capital. Em síntese, questões referentes ao endividamento, dependem da interação entre os seguintes elementos :

a) Existência de oportunidades de investimentos.

b) Restrições de capital, interna e externa. A primeira é determinada em função da capacidade  de autofinanciamento;  a segunda, pela possibilidade de captação externa (capital próprio e endividamento).

c) Custo de capital, que depende da rentabilidade desejada pelos investidores em capital de risco e das taxas de juros dos capitais de empréstimo.

Admitidas eleitas as prioridades e decididos os investimentos, se o aproveitamento das oportunidades   requer  velocidade de implantação superior à que pode ser permitida pelo autofinanciamento e pelo aporte de capital acionário, emerge a alternativa à alavancagem financeira. Esta, além de permitir viabilizar os recursos necessários para implementar investimentos adicionais, tem a finalidade de aumentar a rentabilidade dos capitais próprios.

 As opções de escolha da estrutura de capital  para novos investimentos encontram limitações nas fontes externas de recursos para capital de risco  ou originadas de empréstimos e financiamentos. No primeiro caso a fragilidade do mercado de capitais brasileiro restringe as possibilidades às grandes empresas e praticamente exclui as  pequenas e médias empresas do acesso a  capital acionário.  No segundo caso é a poupança institucional gerenciada por   instituições governamentais, escassa e avidamente disputada,  que supre a maior proporção das necessidades de financiamento de longo prazo do setor produtivo. Esse tipo de recursos contempla encargos financeiros baixos e exige o cumprimento de extenso rito a ser cumprido pelos  pretendentes.  Tais fatos induzem investimentos fora do “timing” adequado, escala acima da recomendável para o empreendimento,  ou ainda, condições impróprias para o reembolso do crédito. 

Acrescente-se que as sistemáticas das linhas de crédito de longo prazo,  basicamente instituídas e monitoradas por bancos oficiais,  são restritivas a  financiamentos  para  a formação do capital de giro.  O capital de giro financiável associa-se a novos investimentos em ativos fixos, em volumes limitados a percentagens dos investimentos em ativos fixos, muitas vezes insuficientes.  Como conseqüência,  parte do capital de giro complementar deve ser gerado pelas futuras atividades ou captado a curto prazo no sistema bancário privado.  Cria-se um fator adicional de instabilidade, já que oscilações nas atividades  econômicas que reduzem as vendas,  ou,  qualquer descompasso na evolução planejada,  criam dificuldades adicionais à administração financeira da empreendedora.   As possibilidades de surgir situações indesejáveis, isoladas ou de forma combinada,  podem ser sintetizadas, a saber:

a) Tentação à investidora de  queimar etapas,  antecipando investimentos que somente seriam necessários  em fases posteriores de sua existência.

b) Utilização de uma proporção de recursos de terceiros acima do desejável.

c) Captação de empréstimos de curto prazo com caráter de maior  permanência.

d) Utilização de prazos de carência e amortização – impostos pelos financiadores –  que não levam na devida conta o  tempo necessário  ao amadurecimento do investimento. 

A conseqüência  provável dos fatos acima descritos,  reside em que as empresas muitas vezes são levadas a posturas aparentemente mais arrojadas do que pretenderiam , ou que seriam recomendáveis pela racionalidade econômica.  Os riscos adicionais  resultantes são de insuficiência da capacidade de pagar,  suprida  via  redução do capital de giro operacional  e  crescente uso do endividamento de curto prazo. 

Para contornar as dificuldades descritas  são  necessárias profundas mudanças culturais nas relações entre os setores financeiro  e não financeiro  da economia nacional. Na esfera institucional, alinham-se as seguintes necessidades que deverão ser atendidas:

a)   Bancos e instituições financeiras do setor privado terão que reaparelhar-se  melhor para operar a longo prazo, captando poupanças privadas e fornecendo capital de risco e de empréstimos ao setor  produtivo. É indispensável que seja incorporada uma nova cultura, no sentido do estabelecimento de verdadeira parceria entre  financiadores e financiados.

b)   Aperfeiçamento e criação de novos mecanismos  para facilitar o acesso ao crédito de longo prazo a pequenas e médias  empresas, principais agentes criadores de emprego e renda.

c)   Criação de novos instrumentos institucionais para viabilizar investimentos produtivos através de capital de risco.  

Do ponto de vista das empresas,   enquanto não são  facilitadas as condições à realização de novos investimentos, a observância das regras abaixo,  recomendáveis pela boa gestão financeira,  pode contribuir para reduzir os   riscos anteriormente explicitados:

a)   Aprimorar seus sistemas de  avaliação de  oportunidades de investimentos,  utilizando técnicas adequadas de orçamentos de capital.

b)   Considerar que projetos bem elaborados, mais do que meios de obter financiamentos, podem contribuir decisivamente para evitar que planos estratégicos consistentes  sejam reduzidos  a  meros pulos no escuro.

     

                                             Vilmar Pereira dos Santos

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